quarta-feira, maio 16, 2012

De Chico Mineiro a Gustavo Lima (e você): o que aconteceu com a música sertaneja?

Minha família toda sempre gostou de música sertaneja. Desde que eu me entendo por gente, eu escuto nas festas de fim de ano, aniversários, churrascos, enfim, juntou todo mundo, imediatamente, rolava o sertanejão. (aoo paixão!) Como diria a teoria determinista, o homem é influenciado pelo meio. E comigo não foi diferente. Até os dez anos, se não me engano, eu era fã de Leandro e Leonardo (ok, não me orgulho disso tá? ainda bem que as coisas mudam! Passou! UFA!) e eu já ouvi muita música sertaneja. Aliás, quem nunca chorou cantando Bruno e Marrone não sabe o que é se sentir compreendida no mundo depois de um pé na bunda (Vai encontraaaaaaaaaaar.. alguém que você ama e que te faça o que fez comiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiigo). E as declarações melosas, "a dor de corno", ou ainda a poesia de Saudade da Minha Terra, Chico Mineiro, Fio de Cabelo, Boite Azul e, a top mais top de todas, Evidências! Que atire a primeira pedra quem não sabe cantarolar uns versos de qualquer uma dessas músicas!

Pois é, minha gente, houve um tempo em que a música sertaneja era poesia. Poesia barata, melosa, com refrões fáceis de se repetir, ultrarromântica, mas era poesia, oras. (não é porque você acha um saco o romance "água-com-açúcar" de José de Alencar que ele vai deixar de ser um romance, certo?)Para mim, ouvir música sertaneja tinha dois propósitos: lembrar da família e sofrer de amor. O eu-lírico das letras sempre sofria de amor, desconsoladamente.. (Estou casando mas o grande amor da minha vida é você! - quem lembra dessa?) Ou ainda, quando existia uma malícia, era tola, ingênua, quase infantil, com trocadilhos que tornavam a música divertida. 

O que eu não consigo entender é: em que momento o sertanejo virou hino a solteirice, putaria e alegria coletiva? Isso já não acontecia nas Micaretas? Era lá, no Axé, que as pessoas gritavam aos quatro cantos que queriam muito beijo na boca, que iriam curtir, beber até cair, solteiro para sempre e etc  (tem aluninhos que leem isso aqui então não vou comentar o restante...). O Sertanejo Universitário não é " um nem outro": descaracterizou completamente a música sertaneja e mudou o ritmo das músicas podres das micaretas. (aliás, a tal música milionária do Michel Teló nada mais é do que uma adaptação (piorada) de um axé lá de porto seguro). 

Não gosto do sertanejo universitário não é porque ele é modinha, todos gostam e eu tenho que ser do contra. Embora hoje meu gosto musical seja outro, dedico todo meu respeito ao sertanejo que sempre ouvi na minha casa, o que me incomoda no sertanejo universitário é que tornou-se "mais um". Mais uma porcaria que vende muito. Mais letras monossílabicas - tchutcha, tchetcherêê, lerereee etc. - Mais ode a promiscuidade. Mais desvalorização do sentimento, como se o que já temos não fosse o bastante. Entre o "Tá combinado já vou sair com meus amigos, Vai rolar o movimento, isso é problema meu, se der saudade o problema é seu*" e o "Eu tenho medo de te dar meu coração/ E confessar que eu estou/Em tuas mãos/Mas não posso imaginar/O que vai ser de mim/Se eu te perder um dia..."   Eu fico com a última, sem dúvidas. 

Acho que a música podre deve existir.. no seu espaço. É divertido ter uma música tosca pra cantar bêbado na balada, mas isso já existia. Não precisava de mais um gênero musical para endossar esse time. 

E a pergunta que fica é: onde foi parar? Onde está o sertanejo das minhas festas de família? A música de corno!!! Ela ainda existe? Ou será que as próximas gerações vão sempre relacionar a música sertaneja ao "Gustavo Lima e Você"?

Mais uma triste constatação para os nostálgicos. Saudades das duplas de Goiás, saudades da minha infância querida que não volta mais... 




* Não sei se foi só eu que percebi isso, mas vendo só a letra, assim, sem a música, eu jamais diria que isso é a letra de uma música sertaneja. E muito menos, que os próximos versos são do mesmo gênero musical. 





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